após o silêncio
Tenho vivido imerso em silêncios. Desde que morri, uma timidez se apossou da minha expressividade. Agora, uns seis centos de horas passadas, como num acaso da natureza, me coloquei novamente num ponto onde é possível dizer.
Todo luto retém em si um eterno silêncio. E toda eternidade contém seus segredos. Trabalhei vorazmente para dissolver meus limites e me deixar ouvir, para desvendar sem resistência as comunicações cifradas no vazio. Como numa frequência das baleias, num outro registro orgânico, num ponto onde é possível escutar. Escutar os segredos do silêncio.
Alcançar o silêncio implica em atravessar muitas camadas de realidade. Camadas e camadas de falsos silêncios, preenchidos por tralhas, pensamentos de radiola, olhares e opiniões de outrem, memórias perdidas, armadilhas da mente, piadas e outros incontáveis obstáculos.
O segredo não está em vencer os obstáculos, mas sim em entender de onde eles vem. O que lança os pensamentos em nosso silêncio? De onde fala essa voz que fala em mim quando silencio? Onde está a minha mente? Quem é esse “eu” que pensa?
A morte - assim como a tristeza e o desprendimento - pode ser um veículo para que esse silêncio seja alcançado. Se dar conta do mistério que encobre a vida. Perceber a intensidade com que corre o tempo. Se dar conta da finitude de cada instante, apesar da eternidade que tudo carrega. Ver a borboleta voando, e depois encontra-la em eterno repouso. Pra onde vai aquilo da borboleta que permitia seu voo?
Aquilo que não está mais vivo, concentrado em um único ponto de energia, passa agora a estar em todo lugar. Percebo minhas partes decompostas habitando um mundo sem limites. Se unindo com essa imensa ilha da via láctea. Sendo ao mesmo tempo adubo para jardins do invisível, e vácuo para a magnitude espacial.
Dizer fica mais difícil, quando tomada a noção dessa elasticidade existencial. Não há muito a falar, não há muito o porquê. Mas no retorno dessa viagem, que de maneira alguma pode ser mais longa que os tais seis centos de horas, dizer é a única alternativa para reconfigurar a organicidade de um corpo, e assim: renascer.
Dar adeus para a morte. Ter com ela mais uma memória, mais um vínculo, mais uma viagem junto dessa companheira inseparável. Ficar agora com essa experiência a ser descrita, reformulada, poetizada. Ter agora tantas histórias, todas pulando em minha superfície pedindo para serem contadas. E se perguntar, quando nos veremos de novo?
Até me reencontrar com ela, vou falando por necessidade. Dizendo, como quem precisa fazer aliança com algo para não se entregar ao mistério e perder a materialidade. Reinventando, também com os ecos do passado, uma voz que só existe agora. Encontrando um novo timbre nessa repetição sempre nova de si. Vivendo com a intenção de quem sabe que cada momento que se repete é único e impossível de se repetir.
Quando habitar o silêncio, não temer. A voz ausente prenuncia uma voz mais potente. 🌀





Esses dias tentei sonhar na beira da água e me veio assim:
"O caminho é que vem ate a gente"
Me lembrou aquela frase da Adélia Prado que eu amo, sobre algumas palavras só ficarem prontas após longos silêncios